A primeira vez que percebi que enxergava menos do que precisava não fora na escola, como acontecia com a maioria das crianças da minha idade (para ser sincero, pouco me importava com as coisas escritas no quadro negro). Verdade é que poderia ter sido naquela noite em que meu pai me levou a um jogo do Internacional e que não conseguia distinguir quase nada do que se passava no gramado. O que sei é que, ironicamente ou não, foi ouvindo que comecei a me dar conta de que pouco via.
Comentei com Clarissa que gostava quando ouvia a música que a Elis chamava o céu de “mata borrão”. Clarissa, o céu de noite é mesmo um borrão. Tiago, o céu estrelado é tão maravilhoso que às vezes, quando estou sozinha olhando para a noite, até choro. Imagina! Um borrão. Somente um borrão. Tiago, definitivamente você precisa de óculos. E com onze anos eu precisei de um par de óculos.
Ônibus com nomes, letreiros distantes, equações escolares e, claro, onze jogadores em cada time: numa tarde de junho começou minha vida através das lentes. O céu estrelado deixei para ver ao lado de Clarisse, ela sabia tudo sobre estrelas, apesar de ser apenas oito meses mais velha que eu – grandeza, brilho, idade, constelações, estrela cadente e distâncias da Terra - quase tudo o que eu sei sobre o assunto, aprendi primeiro com Clarisse.
Na tarde daquele dia, Clarisse guardou meus óculos em seu bolso e disse que só me devolveria quando anoitecesse, para que eu tivesse o “impacto da surpresa das estrelas”, como dizia ela.
Em frente ao muro que separava nossas casas, esperamos a descida gradual e suave do anoitecer da estréia dos meus óculos. Agora Tiago, coloca essas lentes e você vai sentir o tempo que perdeu olhando para os seus “borrões”. Se as maravilhas das estrelas se confirmaram, se no lugar de borrões estavam pontos de uma definição exata, branca e singela, se a partir de então eu poderia ver e imaginar ursos e centauros nos desenhos que formavam as constelações, se então eu poderia ver as cores que explodiam com os fogos daquela noite junina, tudo isso me fora secundário naquele momento. O que ficou para mim, no instante em que coloquei a armação dos óculos sobre o nariz, foi a riqueza de um outro brilho. Talvez tenha sido os filmes que assistia em demasia na época, mas o castanho de Clarisse, mais os olhos do que os cabelos, me machucaram quando eu esperava ser surpreendido apenas pelos astros que minha amiga me prometera.
Nunca tive o mérito de dizer à minha vizinha o que se passou comigo naquela noite e nos dias seguintes. Tampouco encontrei algum arroubo de coragem no dia em que sua família se mudou da cidade. Quando nos despedimos, estava sem os óculos mas, ainda assim, procurei enxergar, pela última vez, a imagem que me causou um dano doce como a primeira paixão da infância. Sem saber que tal imagem já se fixara em definitivo na minha memória e impressões sentimentais. Clarissa é agora tal qual uma das lições que me ensinou antes daquele junho: o brilho que surge para meus olhos, em cada noite estrelada, provém de algo que já se extinguiu num tempo remoto, como uma lembrança que persiste da infância e que se repete cada vez que as nuvens se dissipam.
Ainda hoje tiro os óculos em noites de São João. Nessas datas, engano os pensamentos por alguns segundos, quando a miopia confunde balões juninos com estrelas cadentes, fazendo com que eu sempre faça o mesmo pedido.